Os bons números da cadeia varejista têm gerado novos desafios para as grandes redes que atuam no setor. Com melhores condições de renda e emprego, o consumidor brasileiro passou a exigir mais informações sobre os produtos adquiridos. Além de abastecer esse público, as empresas precisam ainda oferecer alternativas para que o aumento do consumo não agrave ainda mais o problema do lixo no Brasil e no mundo.
Em 2007, as vendas em volume do varejo registraram aumento de 9,9% em comparação ao ano anterior, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O salto na receita nominal foi de 14,1%, a maior alta em seis anos. As divisões de hipermercados, supermercados, produtos alimentícios, bebida e fumo apresentaram o maior crescimento no volume de vendas ao longo do ano, com variação de 6,4%.
Em meio a esses resultados positivos, as grandes redes investem em práticas sustentáveis logo no início da cadeia, com treinamento de fornecedores para a adoção de normas socioambientais em seus diferentes sistemas de produção.
O grupo Pão de Açúcar investiu aproximadamente US$ 74 mil no treinamento de fazendeiros para boas práticas em propriedades fornecedoras de carne bovina, por meio de parceria entre o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Instituto Ethos. A melhora genética permitiu uma redução de até 70% no teor de gordura da carne. As vendas da linha totalizaram R$ 242 mil desde 2005.
No Brasil, o Carrefour adota critérios de qualidade e responsabilidade social desde 1999, quando o Programa Garantia de Origem foi implementado no país. Hoje são 53 produtos com esse selo, obtido por fornecedores que obedecerem a cinco requisitos básicos: sanidade, sabor, aspecto visual, postura ecológica e socialmente correta.
O conceito de Garantia de Origem surgiu em 1991 na França, com o nome Filière Qualité. A rede realiza uma auditoria com visitas regulares a campos de cultivo, pastos e granjas, com fiscalização de todos os aspectos de plantio, colheita, controle de pragas, pasto, abate e armazenamento, entre outros.
As práticas globais do Carrefour com sua cadeia de fornecedores chegam também à área de logística. O grupo utiliza métodos alternativos de transporte em alguns países para diminuir a emissão de gases tóxicos na atmosfera. Um terço das entregas de produtos não-alimentares da região de Paris é feita por meios pluviais, o que evita a emissão de 340 toneladas de CO2 por ano. Na França, a rede optou por otimizar as rotas de entrega, o que permitiu a redução da frota e a conseqüente queda na emissão de carbono.
Por meio do Clube dos Produtores, o Wal-Mart também oferece apoio e orientação profissional a diferentes fornecedores de alimentos. O público-alvo da iniciativa são as mais de 1,3 mil famílias da Região Sul do Brasil.
O Clube oferece orientação especializada sobre produção, gestão administrativa, contratação de mão-de-obra e responsabilidade social. São fornecidos 845 produtos no total, entre verduras, frutas, carnes e itens de padaria e mercearia.
Lojas verdes
O conceito de sustentabilidade passou a fazer parte da implementação de novas lojas, com medidas que visam à economia de energia elétrica, reutilização de água e plantio de árvores para compensar os impactos ambientais das construções.
A primeira loja verde da rede Pão de Açúcar foi inaugurada em maio de 2008 em Indaiatuba (SP). A área de vendas, com 1.600 metros quadrados, tem energia de fontes renováveis, com redução da emissão de gás carbônico equivalente a mais de 190 mil árvores reflorestadas.
Grande parte das gôndolas do estabelecimento é feita de madeira certificada pelo Forest Stewardship Council (Conselho de Manejo Florestal). O sistema de ar-condicionado local permite poupar 10% de energia e até 40% da água consumida será economizada com a adoção de torneiras e válvulas inteligentes, com aquecimento proveniente de calor excedente da casa de máquinas.
Todo o resíduo gerado pela loja de Indaiatuba, incluindo material orgânico, é reaproveitado. O estabelecimento conta ainda com bicicletário, estação de reciclagem e paisagismo com preservação da vegetação nativa, além de incorporação de espécies típicas da região.
O Wal-Mart também aposta nas construções ecoeficientes. Todas as unidades inauguradas desde 2006 adotam parâmetros sustentáveis, como lâmpadas que economizam até 20% de energia, aproveitamento da luz natural e concreto poroso nos estacionamentos para a absorção da água da chuva.
Esse tipo de edificação, considerado modelo para a rede, é encontrado também em São Paulo. O local tem sistema de captação e retardo de águas pluviais desenvolvido com mecanismo de infiltração para alimentação do lençol freático. Duas estações próprias de tratamento de esgoto foram construídas para a reutilização da água em vasos sanitários da loja, irrigação do jardim e infiltração para o solo.
Diferentes lojas do Carrefour no mundo também foram elaboradas com preceitos sustentáveis. Na Itália, um dos hipermercados é abastecido com energia de uma estação hidrelétrica especialmente construída para suprir a loja. Na Espanha, seis estabelecimentos utilizam energia solar e na China as lojas do grupo têm o compromisso de reduzir em 20% a emissão de CO2, integrando um programa nacional do governo local de diminuição destes poluentes. As diferentes iniciativas adotadas pela marca no mundo resultaram na redução do consumo de energia por metro quadrado nas lojas em 9,5% em 2006, em comparação com 2003.
Diminuição do impacto das sacolas plásticas no meio ambiente
Cerca de 30% do lixo gerado no mundo é composto de materiais recicláveis, e mais da metade deste percentual é proveniente de sacolas plásticas. A cada minuto, um milhão dessas embalagens, derivadas de polietileno, são descartadas no mundo. O material leva até 500 anos para se decompor, e seu descarte incorreto no meio ambiente pode causar entupimento de esgotos, galerias e prejudicar diferentes espécies animais. O Brasil produz cerca de 210 mil toneladas anuais de polietileno, o que representa 9,7% do lixo de todo o país.
Por conta desses índices, o combate ao uso indiscriminado de sacolas plásticas é tendência mundial. Na Alemanha e Irlanda, a utilização de sacolas plásticas disponíveis em estabelecimentos é feita sob pagamento, o que leva os consumidores a utilizarem cestas, mochilas ou sacolas permanentes para as compras.
São Francisco, na Califórnia (EUA), aprovou lei que proíbe grandes supermercados de distribuir sacos plásticos de polietileno. No Brasil, diferentes cidades como São Paulo, Curitiba e Rio de Janeiro, adotaram iniciativas para incentivar o uso de sacolas retornáveis.
As iniciativas para o uso consciente das sacolas plásticas levaram entidades ligadas à produção de plástico no Brasil ao Compromisso de Parceria para a implementação do Programa de Qualidade e Consumo Responsável de Sacolas Plásticas, que pretende reduzir o consumo em no mínimo 30%. A iniciativa envolve o uso de sacolas mais resistentes, que indiquem o peso que suportam.
Sacolas retornáveis
As grandes redes de varejo no Brasil apostaram nas sacolas retornáveis como aliadas ao consumo consciente. O Pão de Açúcar tem parceria com a Fundação S.O.S Mata Atlântica para oferecer sacolas feitas com TNT (tecido-não-tecido) em estampas com imagens de animais ameaçados de extinção. Mais de 88 mil unidades de sacolas retornáveis já foram vendidas nas lojas Pão de Açúcar de todo o Brasil, com parte da renda revertida para a Fundação S.O.S Mata Atlântica.
Em maio de 2008, o Wal-Mart lançou sacolas retornáveis de algodão cru, adotadas após três meses de testes realizados em Curitiba (PR) com diferentes alternativas para o transporte de compras, como caixas, sacolas de papel e de lona. As sacolas de algodão foram as preferidas dos clientes por serem mais resistentes, práticas e confortáveis para levar as compras.
O Carrefour também oferece sacolas retornáveis de polipropileno, testadas inicialmente em São Paulo. As vendas começaram nas lojas de São Paulo e Paraná e, até o final de 2008, chegarão a todo o Brasil. Haverá um estoque de 600 mil bolsas para reduzir em pelo menos 10% a quantidade de sacolas plásticas ao longo do ano. As sacolas retornáveis podem acondicionar até 35 kg de produtos.
Reciclagem
Segundo o Instituto Akatu, o Brasil produz 115 mil toneladas de lixo domiciliar por dia, quantidade que pode ocupar mais de 16,4 mil veículos em 150 quilômetros de estrada. A reciclagem é a solução encontrada para amenizar o problema nas cidades brasileiras. Segundo a última Pesquisa Nacional de Saneamento Básico realizada pelo IBGE em 2000, o Brasil coleta diariamente mais de 125 mil toneladas de resíduo proveniente das casas. Apenas 52,8% dos municípios brasileiros depositam esse material em lixões.
No entanto, a reciclagem já passou a fazer parte da vida dos brasileiros. O país tem o maior índice mundial de reciclagem de alumínio (96%) e é um dos maiores em reciclagem de embalagens PET (51%). Cada lata de alumínio reciclada economiza energia suficiente para manter uma lâmpada de 60 watts acesa por quatro horas, e a reciclagem de 100 toneladas de plástico evita o uso de uma tonelada de petróleo.
As redes varejistas contam com diferentes iniciativas para ajudar o consumidor a descartar corretamente os produtos adquiridos em suas lojas. A rede Pão de Açúcar, em parceria com a Unilever, possui mais de 90 postos de coleta que já recolheram 18 mil toneladas de material, entre plásticos, papéis, metais, alumínios e vidros. O projeto gera 350 posições de trabalho em 19 cooperativas.
Desde 2007, a rede oferece coletores para óleo de cozinha usado que, posteriormente, será utilizado na produção de biocombustível. Os consumidores também podem descartar material que não será utilizado imediatamente após a compra. A Caixa Verde foi desenvolvida para recolher o descarte de embalagens promocionais, caixas de pasta de dente e demais itens livres de grandes resíduos de alimentos.
Em conjunto com a Coca-Cola Brasil, o Wal-Mart também implementou um programa de reciclagem para coleta e o processamento de resíduos sólidos. A Estação de Reciclagem das empresas instalará postos de coleta de metal, plástico, papel, vidro e óleo de cozinha em mais de 300 lojas da rede até 2009. Cinqüenta cooperativas serão diretamente beneficiadas, gerando renda e capacitação profissional para 2.500 catadores. No Brasil a marca instala estações de reciclagem em suas lojas desde 2005.
O Carrefour direcionou em 2007 suas ações de reciclagem para a coleta de isopor. Uma parceria com o Instituto Sócio-Ambiental do Plástico (Plastivida) resultou na coleta e reciclagem de mais de 20 toneladas de isopor descartados todos os meses nas 35 lojas da rede em São Paulo.
O isopor pode se transformar em diferentes produtos, como molduras de quadros, rodapés e réguas para uso escolar. Por enquanto, será coletado apenas o material do Carrefour, sem a participação dos consumidores.
Outra iniciativa da rede no Brasil é o apoio ao Reciclar – Instituto de Reciclagem do Adolescente. A sede do projeto foi adquirida com apoio da Fundação Internacional Carrefour. A entidade doou 240 mil euros para a construção da sede da organização, que atende jovens de 14 a 18 anos por meio de programas que ensinam a reciclar papel e produzir objetos a partir desta matéria-prima.